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A Educação Escolar Intercultural Indígena numa universidade brasileira apresentada através de uma experiência audiovisual

Parceiro: Sementeia15/01/2019

 

Colaborador/Autor/Produção: Felipe de Almeida

Aracy Lopes da Silva afirma que o debate sobre a educação escolar indígena é tão antigo quanto à própria história do Brasil. A autora adverte, no entanto, que os debates críticos sobre os modelos educacionais direcionados a essas coletividades são mais recentes.  Bergamaschi e Medeiros lembram que no período colonial brasileiro a educação escolar indígena era desenvolvida por ordens religiosas, como a Companhia de Jesus, que desde o século XVI buscava a catequização e “civilização” dos povos originários. As autoras lembram, porém, que não se deve pensar os indígenas como inertes a esse processo, pois “coerentes com suas cosmologias, mantiveram um modo próprio de educação.”

É a partir do final da década de 1970 e início dos anos 1980 que as populações indígenas latino-americanas iniciaram as reivindicações por uma educação escolar específica e diferenciada, voltada às suas especificidades. Nascimento descreve esse processo e aponta o protagonismo do movimento indígena e indigenista, e até mesmo a atuação de ONG´s “contra a antiga pauta colonizadora que tinha como objetivo a homogeneização cultural”. Este autor vai lembrar que a escola enquanto instituição educativa vai passar a partir daí por um processo de ressignificação, e passa a ser percebida “como um instrumento conceituado de luta”.

Estes movimentos ganham grande visibilidade a partir dos anos 1970 e marcam os debates sobre o reconhecimento da diversidade étnica, social e cultural nos espaços educativos. As noções de interculturalidade e educação intercultural, por exemplo, surgem prioritariamente no campo da educação escolar indígena, especialmente no México, que já em 1930 desenvolve políticas de educação escolar bilíngue. Mariana Paladino situa este processo no contexto dos movimentos pelos direitos humanos de fins da década de 1960, como a origem de uma nova forma de pensar a educação escolar indígena, baseada na ideia de diversidade e pluralidade cultural, tomando a forma como é concebida na atualidade: bilíngue, específica, diferenciada e intercultural. Os resultados das reivindicações, especialmente no Brasil, são também recentes, e vão ser observados a partir da Constituição de 1988, que abre caminho para que a educação intercultural e o reconhecimento de grupos étnicos sejam efetivados como políticas de Estado. Na década de 1990, por exemplo, os Parâmetros Curriculares Nacionais-PCN trazem a pluralidade cultural como um dos temas curriculares transversais.

Ensino do grafismo indígena Kaiowá na Escola Indígena Araporã – Aldeia Bororó – Reserva Indígena de Dourados-MS (Foto: Rossandra Cabreira).

Este movimento chega então ao Ensino Superior no Brasil, a partir da reivindicação pelas populações indígenas de cursos superiores específicos, inclusive para atender a demanda por cursos de formação de professores indígenas. No Estado de Mato Grosso do Sul, por exemplo, o ano de 2012 marca a instalação da Faculdade Intercultural Indígena-FAIND na Universidade Federal da Grande Dourados-UFGD. Nesta instituição são reestruturados cursos já existentes para formação de professores indígenas que atendem até hoje as populações que vivem nos tekoha¹ da região sul de Mato Grosso do Sul, especialmente os indígenas das etnias Guarani e Kaiowá. Na definição de Samuel Barbosa, “Uma terra indígena não é uma gleba sem mais, normatizada pela malha autorreferente dos conceitos do direito. Para os Guarani, por exemplo, seu território é tekoha, espaço da mata preservada para a caça ritual, agricultura e coleta de ervas ou materiais para o artesanato, é também espaço sociopolítico de moradia, festas, lazer e rezas; tekoha é um conceito denso que combina dimensões cosmológicas, ecológicas e sócio-históricas.” (CUNHA e BARBOSA,2018, p. 13).

Fotos do arquivo do Museu de Dourados.

A cidade de Dourados-MS concentra uma população indígena estimada em torno de 15 e 17 mil pessoas, que resistem há algum tempo a um processo de genocídio relacionado ao conflito pela posse de terras indígenas. Ao descrever as origens e características desta situação, Jorge Eremites de Oliveira afirma que Mato Grosso do Sul “disputa a liderança na classificação dos lugares com o maior número de mortes de índios no país e no mundo, dentre outras formas de violência”. Para superar esta situação a educação se apresenta como uma poderosa ferramenta, e as iniciativas de Educação Escolar Indígena ajudam a pensar formas para superar relações de poder que atualmente desfavorecem as populações indígenas.

 

Proposta de logomarca para a Faculdade Intercultural Indígena-FAIND/UFGD elaborada pela Professora Kaiowá Rossandra Cabreira.

Para mostrar a iniciativa da educação escolar intercultural indígena no âmbito da UFGD, suas origens, os cursos existentes e seu funcionamento, mas principalmente as pessoas que fazem parte desta situada prática pedagógica, foi elaborado o trabalho audiovisual que acompanha este texto. O material foi apresentado como trabalho final à disciplina Tópicos em Divulgação Científica e Cultural I do curso de Mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Labjor/Unicamp e foi elaborado com gentil colaboração de docentes e alunos da Faculdade Intercultural Indígena-FAIND/UFGD.

O processo de produção do trabalho levou cerca de dois meses e só foi possível devido ao engajamento das pessoas convidadas a darem depoimentos sobre suas experiências na FAIND, que desde os primeiros contatos se mostraram interessadas em colaborar. Os convites foram feitos para professores e alunos que participam desta prática pedagógica para descrever o processo de criação da Faculdade, a estrutura e as características dos cursos através da experiência de cada participante. Neste sentido, foi elaborada uma carta convite com instruções para a gravação do vídeo, como prazos, o tempo de cada depoimento e os objetivos do trabalho. Junto da carta convite, foi elaborado também um pequeno questionário para servir de roteiro à fala dos participantes. Cada um ficou responsável por abordar um aspecto da Educação Escolar Intercultural Indígena da FAIND/UFGD, assim foi possível colher depoimentos de professores e de uma aluna e professora indígena, para contemplar inclusive uma preocupação de representatividade de gênero no trabalho.

Após o recebimento do material que foi gravado pelos próprios convidados através de aparelho celular, a apresentação foi montada com a utilização do programa de VSDC Free Video Editor, que é um sistema de edição de vídeo adaptado para edição de vídeo digital e arquivos de áudio em vários formatos. Desta forma foram ajustados os tempos de fala, a qualidade do áudio e a ordem dos depoimentos. Também foram acrescentadas legendas no idioma espanhol à fala de cada participante, para favorecer a compreensão do assunto às colegas da disciplina que são provenientes da Argentina e da Colômbia. Este recurso permitirá também a divulgação do material para pesquisadores e interessados no tema dos demais países de idioma espanhol, para além da sala de aula, já que o material também foi disponibilizado através do YouTube.

Com este trabalho foi possível então aprender e desenvolver as técnicas do audiovisual, rever amigos, conhecer a Professora Kaiowá Rossandra Cabreira e refletir à luz da teoria dos estudos decoloniais sobre a experiência da interculturalidade na Faculdade Intercultural Indígena-FAIND/UFGD. A receptividade demonstrada pelos colegas em sala de aula ao assistirem ao vídeo durante o primeiro “Festival Sentirpensar”, nome dado ao dia de apresentação dos trabalhos finais da disciplina, demonstra o grande interesse que há em torno da questão indígena. Iniciativas deste tipo devem ser cada vez mais estimuladas, inclusive com a exibição de materiais elaborados pelos próprios indígenas. A experiência da FAIND não esgota as possibilidades de educação intercultural, já que esta prática, realizada por seres humanos, está em constante transformação. É urgente somar esforços para a superação da condição de discriminação e violência que sofrem as populações indígenas na América Latina, para pensar em um mundo outro, em que as populações originárias sejam respeitadas e tenham seus direitos garantidos.

Eduardo Galeano lembra que a utopia serve antes de tudo para seguirmos caminhando, e embalados pela poesia de Julio Numhauser, interpretada brilhantemente por Mercedes Sosa, que ousemos a todo cambiar:

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Confira o audiovisual “Uma apresentação situada da Faculdade Intercultural Indígena da Universidade Federal da Grande Dourados” produzido por Felipe de Almeida, lançado em dezembro de 2018.

 

 

 

Referências Bibliográficas

BERGAMASCHI, Maria Aparecida; MEDEIROS, Juliana Schneider. História, memória e tradição na educação escolar indígena: o caso de uma escola Kaingang. Rev. Bras. Hist.,  São Paulo ,  v. 30, n. 60, p. 55-75,    2010 .

CUNHA, Manuela Carneiro da; Barbosa, Samuel Rodrigues (Orgs). Direitos dos povos indígenas em disputa. São Paulo: Editora Unesp, 2018.

NASCIMENTO, Raimundo Nonato Ferreira do Nascimento. Antropologia, Interculturalidade e Educação Escolar Indígena em Roraima. 1 ed. Curitiba: Appris, 2017.

OLIVEIRA, Jorge Eremites de. Conflitos pela posse de terras indígenas em Mato Grosso do Sul. Ciência e Cultura, v. 68, p. 4-5, 2016.

RESTREPO, E.; ROJAS, A. Inflexión decolonial: fuentes, conceptos y cuestionamientos. Popayán: Samava, 2010.

SOSA, Mercedes. Todo Cambia. (4m44s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=rtxHNGvIZDY>. Acesso em 15 de janeiro de 2018.