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Saberes tecnocientíficos e populares: a pesquisa, o ensino e o pilar manco da extensão

Parceiro: Sementeia12/02/2019

Colaboradora/Autora: Sheilla Resende 

 

Para começar: o saber, a ciência, a extensão 

Num país de dimensões continentais, de tradição agrária, em que uma memória de posse violenta da terra fica latente sob os discursos lineares e universalizantes do agronegócio, alvo das tecnologias das mais diversas sortes produzidas junto às pesquisas nas ciências agrárias, vale pensar sobre a existência e a prática de uma ciência que, muitas vezes, se pretende “neutra”.

O tradicional tripé “ensino, pesquisa e extensão”, mote de universidades públicas, confere a essas três categorias o mesmo estatuto de valor ao concebê-las separadamente, mas fadadas ao que seria um “ponto de encontro”. Algo, contudo, acontece durante essa possibilidade de encontro, que faz com que o pilar da extensão nas universidades encontre-se frequentemente “manco”.

No que tange as ciências agrárias, apagar ou colocar em questão os saberes da população rural, ou ainda, reformulá-los para conferir a eles um estatuto “científico” e, posteriormente, “devolvê-los” ao homem do campo, causa, frequentemente, um ponto de inflexão na trajetória para um possível encontro entre a pesquisa, o ensino e a extensão.

Propriedade de produção de café gerida por uma família de agricultores do sul de Minas Gerais. Foto: Sheilla Resende.

Todo saber é tomada de posição e o lugar do saber científico não é o mesmo do pequeno agricultor. Como fazer convergir esses diferentes percursos de produção de sentido? Não se trata, acredito, de “estender” os saberes produzidos na universidade até o campo, como se eles fossem moldes passíveis de receberem confortavelmente toda e qualquer relação com a terra. Trata-se de permitir e oportunizar que os saberes do campo cheguem à universidade. Fazê-los dialogar.

Não é o caso de perpetuar mecanismos que “pensem” pelos agricultores, mas sim de deixar que a sua forma de significar produza efeitos, e não seja sobreposta, falada sobre, interditada.

            A partir dessa problemática foram pensados os seguintes caminhos para este texto:

(1) problematizar a ideia de neutralidade da ciência, uma vez que seu modo de funcionamento está alinhado a interesses sociais e históricos, num movimento de retroalimentação em que o fazer científico perpetua determinadas lógicas forjadas que corroboram e colocam a existir práticas econômicas e sociais ao mesmo tempo em que são fomentadas por elas;

(2) mostrar, a partir de um texto de apresentação publicado a propósito do evento “2º UFLA faz Extensão”, como a pretensa linearidade dos discursos tecnocientíficos das instituições públicas de pesquisa mascara o funcionamento político dos dizeres e da ciência.

 

Língua, discurso, poder e política

As bases teóricas sobre as quais repousa esta reflexão são aquelas que oportunizam um encontro entre a perspectiva que tem respaldado meu olhar de pesquisadora, a Análise de Discurso da maneira como proposta por Michel Pêcheux, e os Estudos em Ciência, Tecnologia e Sociedade (ECTS).

Essas duas formas de olhar para a linguagem, para os sujeitos e para história, acredito, se encontram quando permitem conceber o conhecimento e tudo o que é produzido a partir dele como uma tomada de posição, como uma relação com as ideologias e com a maneira como são organizadas as sociedades em suas relações de poder.

A mim parece pertinente destacar neste ponto uma colocação de Marilena Chauí (1993, apud Oliveira Júnior, 2000, p. 71) sobre uma chamada crise da razão, ideia pós-moderna (Jameson, 1994, apud Oliveira Júnior, 2000, idem), em cujo cerne pode ser observada, dentre outras, a negação de que a razão possa captar uma continuidade temporal e o[1] sentido da história, surgindo, assim, no lugar, o que é descontínuo, contingente…

Sob essa convergência de olhares, que problematizam uma suposta objetividade do fazer dos sujeitos sobre o real, penso existirem profícuas possibilidades explicativas para a distância que se estabelece entre as pesquisas e o ensino nas ciências agrárias e as comunidades que vivem da terra.

É preciso pensar. É preciso saber. É preciso também, e sobretudo, sentir. Sentir para perceber que a relação com os territórios pode passar pela obtenção do lucro, e não passar necessariamente pelo esvaziamento de seus sentidos e pelo seu domínio. É preciso sentir que por meio da relação com a terra o sujeito se faz sujeito sob um modo íntimo e peculiar de significação. É preciso sentir que a forma de se relacionar com a natureza e com seus recursos vai para muito além do que as ciências agrárias podem- e conseguem- mostrar, capturar (FALSBORDA, 2009).

 

Desnaturalização: a política da e na língua

 A propósito do evento “2º UFLA faz Extensão”, promovido pela Universidade Federal de Lavras anualmente, no momento em sua segunda versão, fiz um pequeno recorte de seu texto de apresentação, que circula vias redes sociais, para observarmos o funcionamento discursivo de um dizer elaborado junto a essa instituição pública tradicionalmente agrária.

É importante observar que para nossa reflexão junto à Análise do Discurso pecheutiana e junto às perspectivas dos Estudos em Ciência, Tecnologia e Sociedade, não colocaremos em questão a intenção da universidade ao pensar, planejar e promover um evento extensionista. Não o faremos porque acreditamos que os dizeres têm seus lugares de significar antes mesmo de serem enunciados pelos sujeitos. E, esses sujeitos, quando o fazem, já dizem coisas carregadas de sentido. Sentidos marcados no tempo, no espaço, na história. Esse gesto nos ajuda a refletir sobre a ideia de que não há fazer científico “neutro”, distante da política.

Vejamos um recorte do texto de apresentação do evento:


A Universidade Federal de Lavras consolidou-se como um importante centro de produção de conhecimento e formação e profissionais em seus 109 anos de fundação. De Escola agrícola até atingir o posto de uma das melhores universidades do Brasil, a UFLA através da extensão universitária atendia às demandas de ofertas de cursos e oficinas práticas voltadas para o dia a dia do pequeno produtor rural.

No ano de 2017 tivemos a oferta de 90 atividades e mais de 600 participantes da comunidade. No ano de 2018, buscando dar continuidade estas ações e aumentar a oferta das mesmas, a UFLA decide criar o evento UFLA Faz Extensão. Com um enfoque direcionado para o pequeno e médio produtor rural e suas famílias, este evento busca a oferta de ações que dialoguem diretamente com a realidade dos produtores de nossa região e suas famílias


 

Detenhamo-nos, neste primeiro momento de análise, à expressão “às demandas”. O modo de funcionamento dessa expressão opera em dois sentidos-base: (1) um primeiro, graças ao artigo “as”, nos permite significar que há demandas para a oferta de cursos ministrados pela comunidade universitária; e (2) um segundo sentido, que faz com que signifiquemos, embora não esteja escrito, que essas demandas partem ou das comunidades-alvo dos cursos e oficinas a serem ministrados, ou da injunção às instituições de pesquisa, para que haja compartilhamento e circulação dos saberes produzidos na universidade.

Um impulso inicial para vermos funcionar a política nos discursos institucionais é pensarmos que falar em “as demandas”, sem dizer “que demandas?”, “por parte de quem?”, “para quê?”, “por quê?” é contar com a produção de sentidos junto a uma memória coletiva. Essa memória conferirá lastro para um modo de significar que concebe como sujeito da manifestação do desejo por oportunidades de treinamento- cursos, oficinas- as comunidades [rurais], e como agente que pode saciar esse desejo a universidade.

Esse modo de significar não é possibilitado pela forma linguística tão somente. O que a estrutura da língua faz, neste caso, é “esconder”, dissimular, por meio da utilização do artigo definido “as”, o funcionamento político da gestão do conhecimento na nossa sociedade: de sobreposição do saber tecnocientífico ao saber popular. Os saberes, legitimadamente produzidos nas universidades, devem ser “compartilhados” com as comunidades, usualmente em uma relação unilateral, em que a ciência institucionalizada se sobre-põe e a ciência popular se dilui, se apaga.

Se por um lado a língua, por um modo de funcionamento linear, dissimula o teor político-ideológico do dizer, por outro lado ela pode trazer em sua estrutura sintática uma tensão vinda de lugares outros. É o caso do fragmento “ações que dialoguem diretamente com a realidade dos produtores de nossa região e suas famílias”, presente no texto de apresentação do evento 2º UFLA faz Extensão.

Desejar a promoção de ações que dialoguem diretamente com os produtores da região carrega em sua constituição mesma a negação desse diálogo “direto”. Um olhar menos naturalizado pode encontrar certa estranheza para conceber um diálogo que não seja estabelecido diretamente entre os sujeitos. É neste ponto que conseguimos perceber, na língua, o incômodo que permeia a relação entre os saberes. Algo acontece, para além da estrutura linguística, que permite produzir sentido para algo tão paradoxal quanto um diálogo indireto.

Um (des)encontro entre saberes. O diálogo é produzido a partir da projeção imaginária que fazemos do outro. Não há diálogo fora dessa condição.

No caso do universo das ciências agrárias, a projeção imaginária dos pequenos produtores concebida para um suposto diálogo extensionista não tem contemplado o universo de produção de sentido desses sujeitos. Essa gente se relaciona com a terra de uma maneira que vai muito além da busca pela máxima eficiência. Há sentido, que não seja somente o lucro, para a relação dos agricultores com seus territórios.

Estabelecer diálogo não é apenas escoar sentidos de um universo dominante e legitimado para um universo silenciado. Silenciado, não vazio. Estabelecer diálogo é deixar significar. Sim, deixar, porque num universo de ocupação e utilização de territórios para produção de alimentos dominado pela narrativa do agronegócio, a universidade precisa não “transferir” seu saber, mas deixar outros saberes emergirem e produzirem sentidos e efeitos em seu espaço mesmo.

 

Finalizando a conversa: alimento, produção, consumo, ética e empatia

Para finalizar esta problematização sobre a não neutralidade do fazer científico e sobre os efeitos dessa opacidade sobre o pequeno agricultor e a agricultura familiar, vale assistir (link), o que diz a chef de cozinha argentina Paola Carosella sobre gastronomia, produção de alimentos, escolha e consumo.

*Este texto é um recorte do trabalho final realizado para a disciplina “Epistemologias situadas e engajadas – corpos, contextos e políticas na produção de conhecimentos”, ministrada pela Profa. Dra. Márcia Maria Tait Lima, no programa de mestrado em Divulgação Científica e Cultural, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

 

Referências

FALS BORDA, O. Uma sociologia sentipensante para América Latina. Bogotá, CLACSO, 2009.

OLIVEIRA JUNIOR. Neoliberalismo, educação e emprego. Juiz de Fora: FEME Edições, 2000.

PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 1995.

[1] Sob meu olhar junto à Análise do Discurso Materialista não há o sentido, assim, determinado, passível de apreensão, desejável, e, sim, sentidos, contingentes, fluidos, (in)desejáveis, em relações que permitem, negligenciam ou apagam suas possibilidades de existência.