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Vestibular Indígena da Unicamp, potencializando inclusão e troca de saberes

Parceiro: Sementeia10/01/2019

Colaboração/Autores: 

Natasha Marques de Paula Santos, Paulo Henrique Moraes de Souza, Victor Fidencio Andretta

O primeiro vestibular indígena da Unicamp acontece em 5 cidades, oferecendo 72 vagas para inscritos de todo o país.

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conforme os dados da Comissão de Vestibulares, oferecerá 72 vagas em 34 cursos da universidade, realizando a primeira edição do vestibular indígena para estudantes que ingressarão em 2019. A partir da experiência da UFSCar, que realiza o vestibular a cerca de 10 anos, foram organizados grupos de trabalho a fim de discutir questões referentes a essa abertura de vagas e a entrada desses novo público na universidade.

De acordo com os dados da Comvest, as inscrições ocorreram de 15 de agosto até 14 de setembro de forma gratuita e, com isso, teve um número de 823 inscritos. Já a prova será realizada em cinco cidades no dia 02 de dezembro deste ano, posto que a mesma foi elaborada em Língua Portuguesa e contemplará 50 questões de múltipla escolha. Estas questões abordarão Linguagens e códigos, Ciências da Natureza, Matemática, Ciências Humanas e Redação,  sendo a primeira composta de 14 questões e as demais de 12 questões. Ademais, na redação terão duas propostas, no qual o candidato escolherá uma para fazer. Assim, a nota mínima a ser alcançada tem de ser de 25% em cada uma das provas para que o candidato tenha a possibilidade de concorrer a vaga no curso escolhido.

Outro aspecto importante é a divulgação dos resultados, que será feito exclusivamente no endereço eletrônico da Comvest (acesse aqui para acompanhar resultados) em 29 de janeiro do ano que vem. Dessa forma, a matrícula também será feita por meio eletrônico, mas a confirmação ocorrerá no dia 20 de fevereiro de 2019, presencialmente. Nesse contexto, a prova será aplicada em cinco cidades do país, escolhidas de forma estratégica e de acordo com a demanda. Logo, como ocorreram 823 inscrições, mas apenas 610 foram homologadas após verificação da documentação, sendo que destas inscrições, 84 pessoas realizarão a prova em Campinas-SP, 24 em Dourados-MS, 45 em Recife-PE, 107 em Manaus-AM e 350 em São Gabriel da Cachoeira-AM. No entanto, o número de inscritos se refere ao local onde as pessoas irão fazer a prova, não necessariamente ao local onde os inscritos residem.

Os inscritos no Estado de São Paulo, desse modo, provém da região de Peruíbe, sendo 10 indivíduos, 7 da região de Bauru e apenas 3 do município campineiro. Além disso, com base em experiências anteriores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o índice de abstenção no dia da prova, em algumas cidades, poderia atingir 40%, inclusive por dificuldades de transporte até os locais de prova. Com isso, segundo o coordenador do projeto e também doutor em História Social pela USP, José Alves, a ideia de levar a prova ao município de São Gabriel da Cachoeira ocorreu pelo motivo de lá existirem 20 etnias indígenas e também da dificuldade destes se deslocarem até Manaus, devido a precariedade dos transportes e ao tempo gasto. Por conseguinte, ainda de acordo com o mesmo, a Unicamp, mesmo sabendo que teria mais gastos, preferiu levar o vestibular até esse município, para tentar reduzir essa taxa de abstenção, o que pôde ser comprovado pela adesão do número de inscritos no município, sendo mais da metade dos candidatos.

Nesse sentido, os cursos mais procurados foram Enfermagem com 191 candidatos inscritos, 56 em Administração e 47 em Farmácia. Já no Instituto de Geociências houve 16 inscritos para 6 vagas, em que foram disponibilizadas 2 vagas para Geografia Integral, 2 para Geografia Noturno e 2 para Geologia. Dessa forma, o curso com maior concorrência é o de Enfermagem com 95,5 candidatos/vaga, seguido pelo curso Farmácia com 23,5 candidatos/vaga. Desse modo, o maior número de vagas foi oferecido pela Faculdade de Educação (FE), em que foram 11 no total.

José Alves, coordenador do projeto do Vestibular. Foto da Equipe

Além disso, a Unicamp tem dedicado, por meio dos Grupos de Trabalhos (GTs), para a recepção e apoio a permanência dos indígenas, uma vez que o acolhimento acontecerá entre os dias 20 e 22 de fevereiro, antes dos outros alunos, com a adoção dos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU, com múltiplas atividades que acontecem nos campi. Assim, o roteiro dessas atividades prevê um tour de reconhecimento, como apresentação da universidade, bem como da região de Barão Geraldo, dos principais pontos do municípios de Campinas, Piracicaba e Limeira, onde se encontra o campi. A Unicamp disponibiliza bolsas de permanência para os estudantes com vulnerabilidade socioeconômica e, os estudantes indígenas, assim como todos os estudantes devem passar por uma análise prévia  a partir de critérios. A partir disso, estarão disponíveis bolsas de apoio à permanência, como bolsas de Alimentação e Transporte, Auxílio Moradia ou vagas na Moradia Estudantil, bem como Bolsas de Auxílio Social (BAS).

O coordenador do projeto José Alves, afirmou em entrevista que a entrada desses estudantes irá contribuir positivamente, sendo uma experiência muito rica. “Uma universidade ela tem que ser a mais heterogênea do ponto de vista social, cultural, étnico, racial. Então, nesse sentido, a população indígena é a que menos têm acesso ao ensino superior porque eles têm uma realidade educacional muito diferenciada se comparados ao demais. Formalmente tem o mesmo ensino, mas a realidade educacional é diferenciada. Ter um vestibular próprio, atende a expectativa da Unicamp de diversificar as formas de ingresso e permitir a democratização de diferentes culturas, diferentes povos e diferentes experiências educacionais”.

No mesmo viés, concorda a doutora em artes pela Unicamp, Daniela Gatti, a qual também é membro do grupo de trabalho do vestibular indígena. “Essa entrada desse novo estudante na universidade eleva a questão da diversidade, de trazer outros tipos de conhecimentos e fazer com que seja incluído um outro perfil de estudante que já carrega em si um conhecimento próprio. Que potencialize trocas de saberes”. Nesse sentido, torna-se uma tentativa de incluir uma etnia ainda pouco presente na universidade. Gatti ainda afirmou que em um levantamento feito pela universidade existem apenas 68 estudantes indígenas na graduação.

Porém, não são todos os cursos que ofereceram vagas para esses estudantes, como, por exemplo, a medicina. Dessa maneira, existe uma contradição, tendo em vista que  dados da Comvest em 2018, demonstraram que as áreas mais procuradas pelos indígenas são a educação e a saúde, sendo solicitadas vagas nessas áreas. José Alves justificou que todos os cursos da universidade necessitam aderir o vestibular até 2021, mas que “a medicina não decidiu aderir nesse primeiro momento, porque já tem uma série de mudanças acontecendo na Unicamp e eles querem conhecer um pouco mais essa experiência e se adaptar às realidades (…) o que foi manifestado na reunião da Câmara Deliberativa da Comvest”.

Quanto a inserção desse público dentro da universidade, existem algumas dificuldades, por exemplo, a questão burocrática quanto a documentação para comprovação de etnia indígena. Para comprovar isso, é necessária uma declaração de pertencimento à etnia, com a assinatura de duas lideranças indígenas e um chancelamento da FUNAI. Nessa perspectiva, nesse primeiro momento foi observada a existência de uma penalização do público feminino, como afirmou José Alves, visto que as lideranças indígenas na maioria das vezes são homens e, se um pai, por exemplo, não assina, uma indígena não pode realizar o vestibular.

Assim, fica a critério das lideranças quem realiza ou não o vestibular. Esse foi um ponto observado pela universidade e que é pautado pelo feminismo indígena, sendo que as discussões precisam ser amadurecidas futuramente, pois ao mesmo tempo que a declaração serve para evitar fraudes, é um inibidor para que certo público possa vir a não alcançar a realização do vestibular.

Uma outra dificuldade refere-se a questão linguística, já que grande parte dos indígenas apresentam o português como segunda língua. Nesse sentido, a universidade buscará fazer articulações com o Centro de Estudos de Línguas (CEL) e o Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), existentes na Unicamp, a fim de conceder aulas de língua portuguesa aos estudantes indígenas. Segundo Vicente Eudes, professor do Instituto de Geociências da Unicamp e também membro do grupo de trabalho do vestibular indígena, “uma ideia interessante é, por exemplo, ter um grupo para fazer leituras dos textos das disciplinas (…) criar um grupo de estudos permanentes que auxiliem nessas dificuldades”.

Daniela Gatti. Membro do GT do Vestibular Indígena e assessora da Pró Reitoria de Graduação da UNICAMP. Foto da equipe.

 

Além disso, em relação a questões referentes à convivência e inserção dentro da universidade, inicialmente, segundo Gatti, a recepção dos estudantes será dada por meio de uma espécie de sistema de “apadrinhamento”, em que os estudantes possam ser acolhidos por pessoas as quais manifestaram interesse em ajudar e que prestem apoio quanto a permanência, como o oferecimento de uma casa provisória até que finalize o processo de recebimento das bolsas e auxílios com relação a noções da universidade.

Como planos futuros, Eudes afirma que “a ideia é criar projetos que tenham aderência com a questão cultural indígena ou outras questões para que possam se inserir de uma maneira que se sintam fazendo parte e se sintam animados, incentivando a interagir nas organizações na universidade”. Assim, para José Alves, também é vista a possibilidade de criação de uma secretaria específica para os indígenas e espaços de convivência.

Quanto à perspectivas futuras da experiência, José Alves diz que o índice de abstenção do vestibular indígena é alto, com base nos vestibulares da UFSCar, e, como conjecturas, os estudantes podem não realizar o vestibular, não apresentar um desempenho suficiente, por exemplo, ou podem realizar, mas não vir efetuar a matrícula por diversos fatores, como questões infraestruturais.

Porém, Alves tem expectativas positivas de que “a Unicamp possa acolhê-los bem e que eles possam se sentir em casa e que nós possamos aprender muito com a cultura deles e, nesse sentido, ir adiante para cumprir o pressuposto educacional de que todo estudante tenha  direito ao ensino superior, direito ao ensino (…). O sistemas de seleção  nas universidades do mundo inteiro, priorizam regras para que candidatos com experiências educacionais similares disputem vagas entre si e é isso que a Unicamp está inovando e fazendo aqui (…) a Unicamp é a primeira estadual paulista a fazer um vestibular indígena”.

Vicente Eudes, professor do Instituto de Geociências, que deve receber 6 estudantes indígenas aprovados na primeira chamada.

Baseando-se na articulações teóricas de Ndlovu (2017), o sistema atual é marcado pela conquista e subjugação de uma parte por outra, abrangendo as esferas política, econômica, social e até mesmo epistêmica das sociedades não-ocidentais por seus colonos europeus e seus descendentes euro-norte-americanos. Nesse sentido, o autor vê que a ideia dos saberes indígenas tem um grande potencial para influenciar a visão de mundo fundamentalista do ocidente, que na visão do autor, pretende falsamente ser a única capaz de universalidade.

Como trabalhado no texto de Restrepo e Rojas (2010), Paulo Freire enxergava na educação um papel político que é capaz de promover transformações sociais, superando injustiças e eliminando sistemas de opressão social. Nesse contexto, a pedagogia do oprimido trabalhada por Freire visa recuperar a humanidade dos oprimidos sociais, que no caso podem ser interpretados como os índios, para que estes recuperem sua humanidade por meio da ação como sujeitos revolucionários, na qual a pedagogia tem um papel fundamental para a construção de um novo homem e uma nova mulher, que são capazes de transformar a realidade que os cerca por meio da educação.

Desse modo, o professor Vicente Eudes, em entrevista, afirma que “o Brasil precisa criar uma política de inclusão para uma população que foi historicamente marginalizada. Nesse sentido, a inclusão é a possibilidade de formar um corpo técnico de um conhecimento não indígena que é importante para o auxílio a população indígena. Por outro lado, é uma possibilidade de integrar eles ao sistema universitário público e também de maior integração social entre indígenas e não indígenas. Isso é uma possibilidade de criar um país mais democrático”.

*Trabalho final realizado para a disciplina  “GF402 – História Econômica , Política Social do Brasil ”, ministrada pela Profa. Dra. Márcia Maria Tait Lima/PED Iraima Lugo, oferecida no Instituto de Geociências da Unicamp durante segundo semestre de 2018. 

 

REFERÊNCIAS:
ALVES, José. Entrevista 1 . [nov.2018]. Entrevistadores: N. Santos, P. Souza e V. Andretta. Campinas, 2018. 1 arquivo.mp3.
COMVEST (Campinas). Unicamp. Vestibular Indígena 2019. 2018. Disponível em:
<https://www.comvest.unicamp.br/vestibular-indigena-2019/>. Acesso em: 11 out. 2018.
CONSU (Campinas). Unicamp. GT Ingresso 2019: (Deliberação CONSU-A-08/2017). 2017.
Disponível em:<https://www.unicamp.br/unicamp/sites/default/files/2017-08/propostaGT_cotas_unicamp_20170831.pdf>. Acesso em: 11 out. 2018.
EUDES, Vicente. Entrevista 1 . [nov.2018]. Entrevistadores: N. Santos, P. Souza e V.
Andretta. Campinas, 2018. 1 arquivo.mp3.
GATTI, Daniela. Entrevista 1 . [nov.2018]. Entrevistadores: N. Santos, P. Souza e V.
Andretta. Campinas, 2018. 1 arquivo.mp3.
NDLOVU, Morgan. Por que saberes indígenas no século XXI?: Uma guinada decolonial. Epistemologias do Sul , Foz do Iguaçu, v. 1, n. 1, p.127-144, jan. 2017.
PRG (Campinas). Unicamp. Graduação Discute Recepção e Permanência de Novos
Ingressantes Indígenas. 2018. Disponível em:
<https://www.prg.unicamp.br/index.php/noticias/502-graduacao-discute-recepcao-e-perman
encia-de-novos-ingressantes-indigenas>. Acesso em: 27 nov. 2018.
RESTREPO, Eduardo; ROJAS, Axel. Antecedentes y Genealogía: Algunas líneas constitutivas. In: RESTREPO, Eduardo; ROJAS, Axel. Inflexión decolonial: fuentes, conceptos y cuestionamentos. Popayán: Editorial Universidad del Cauca, 2010. Cap.1/Parte 2. p. 53-65.