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Uma estudante da LEC-UFVM em Brasília: breve relato

Parceiro: Olhares do Campo22/12/2017

 

 

Dando continuidade ao dossiê “Embates da Educação Pública em 2016”, segue relato – produzido por estudantes da LEC-UFVJM – sobre a ida de uma estudante da LEC-UFVJM à manifestação do dia 29 de novembro de 2016 em Brasília.

 

 

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Uma estudante da LEC-UFVM em Brasília: breve relato

Adelza Higino; Ivani de Fatima A. Rodrigues; Juliana da Silva Moreira; Napolitânia Gonçalves da Silva

Traçando um breve contexto histórico do processo de construção da Educação do Campo, uma luta antiga, é possível compreender que a semente que a fez germinar surgiu da demanda de movimentos sociais pelo direito de uma educação de qualidade. Essa forma de educação, hoje mais consolidada, procura dar centralidade aos interesses dos campesinos a partir de uma pedagogia libertadora, voltada ao oprimido. É representativa a visão da Pedagogia do Oprimido a esse respeito. Para Medeiros (2014), a pedagogia freireana “no fundo é a pedagogia dos homens empenhando-se na luta por sua libertação”.

Considerando a trajetória da Educação do Campo, portanto, era de se esperar a adesão de parte de seus sujeitos em ação ocorrida no dia 29 de novembro de 2016, em Brasília, data em que o Senado discutia a votação da Proposta de Emenda constitucional 55 (PEC 55). Chamado de “Encontro Nacional das Ocupações”, o evento foi organizado por meio de redes sociais. “Educação como Direito e não Mercadoria” foi um lema que marcou esse momento político. Além de ser contrária à PEC 55, que congela por 20 anos investimentos em saúde, educação e assistência social, a manifestação também era contra a MP 741, que propôs reformas ao ensino médio. O entendi

 

mento de muitos manifestantes e profissionais da educação era o de que as universidades, que ocupam importante papel no desenvolvimento social, cultural e humano do país, correriam o risco de ter sua autonomia fragilizada nesse contexto político.

No dia 25 de janeiro de 2017, conversamos com Graziele Aparecida de Jesus, que participou do evento. Na ocasião da entrevista, a estudante cursava o quinto período do curso de Licenciatura em Educação do Campo (LEC) da UFVJM, na habilitação de Ciências da Natureza. Tal diálogo teve como proposta discutir e entender como foi o evento, especialmente a partir do olhar das Licenciaturas em Educação do Campo. Além da estudante, também estiveram lá docentes do curso, bem como outras pessoas da universidade.

Foto da manifestação registrada por celular.

Graziele relatou sobre aspectos de organização da manifestação e sobre motivos que levaram milhares de alunos, professores e representantes dos movimentos sociais a manifestarem seus interesses frente ao Congresso Nacional em Brasília. A professora em formação presenciou a audiência pública então ocorrida na Câmara dos Deputados. Testemunhou também a atuação da tropa de choque da Polícia Militar do Distrito Federal. Segundo a estudante, no momento em que manifestantes se deslocaram para a frente do prédio do MEC, na tentativa de entregar uma carta com reivindicações da Educação do Campo para representantes do Ministério da Educação, sofreram repressões da parte dos policiais. As ações pacíficas de uma manifestação que reivindicava direitos teve bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral como resposta, o que dispersou manifestantes que buscavam seus direitos.

Esse relato condiz com a versão apresentada na ocasião pelo site Brasil de Fato, a qual constatou que parlamentares de oposição formaram uma comitiva para dialogar com os manifestantes, mas foram impedidos pela polícia de se aproximar. A esse respeito, segundo reportagem, chegou a afirmar ao site, com os olhos vermelhos em decorrência do gás lacrimogêneo, o deputado João Daniel:

Não tinha nem comando pra fazer uma negociação com a gente. (…) nunca vi uma agressão tamanha na frente da câmara, com cavalaria, com helicóptero, com muitas bombas de gás.

A respeito desses momentos vividos no dia da manifestação, Graziele relatou:

Tive participação ativa no movimento, onde grande parte das pessoas pôde expor seus interesses. Enfrentando o medo, [os manifestantes] partiram pra luta para entregar a carta. Dentre os componentes da massa, havia representante dos movimentos sociais

Além de narrar os acontecimentos relatados, a manifestante considerou o encontro riquíssimo em troca de experiências, um espaço para compreender melhor o cenário político de então e também conhecer pessoas de outras licenciaturas. Em sua visão, o que foi apresentado pelo governo vigente na ocasião, não era favorável para políticas públicas de acesso à universidade para o campesinato.

Em nossa leitura, sabendo que a Educação do Campo é fruto das lutas do movimentos sociais, a participação de professores e estudantes do curso nessa manifestação veio para reforçar a importância do trabalho coletivo e da união de interesses e ideias na transformação social. A esse respeito e em relação à luta dos sujeitos do campo, é interessante resgatar o olhar Karl Marx, quando afirma que “mudanças na sociedade ocorrem a partir da ebulição dos movimentos sociais contra o capital e o estado”

Referências:

Alexandre Medeiros. Pedagogia do Oprimido: Resenha Crítica. Disponível em: http://www.portalconscienciapolitica.com.br/products/pedagogia-do-oprimido-resenha-critica/

Cristiane Sampaio, Rute Pina e Lilian Campelo. Mobilização nacional que lotou Brasília contra PEC 55 foi sufocada pela PM. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2016/11/30/manifestantes-protestam-contra-pec-55-ato-em-brasilia-termina-em-repressao-policial/ acessado em 29/01/2017.

Rede Brasil Atual. “Movimentos sociais promovem ‘Ocupa Brasília’ nesta terça-feira’. Disponível em: http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2016/11/movimentos-sociais-promovem-ocupa-brasilia-nesta-terca-5842.html acessado em 29/01/2017.